quinta-feira, 16 de julho de 2009

Una Habitación

Tras una pesadilla se despertó en el medio de la noche. Se quedó cerca de la ventana de su habitación mirando la calle. No había nadie allí en la noche fría. Todos dormían. Solamente él y su insoportable insomnio estaban despiertos. Ahora, se acordaba de su adolescencia y de Marina. ¡Que guapa era ella! La chica más linda de todo el mundo – él pensaba. El primer amor.
En verdad, resurgió un pensamiento antiguo en su cabeza. Algo que pensaba no sentir desde aquel tiempo. Desde el colegio. Marina volvió a su pecho como una avalancha de emociones que él pensaba no tener más. Los muertos no pueden moverse en sus urnas, pero, a veces, ellos vuelven a los que se acuerdan de ellos. Era casi un sueño. Casi podía sentir el verano en su piel, aquel mismo verano de cuándo conoció a Marina. Extrañaba todas esas cosas de chico.
Tenía sólo dieciséis años y ya podría garantizar a todos que conocía el amor. Hacía mucho gusto de contarles a todos, pero no les hablaba el nombre de la chica. Sí, porque si Marina le descubriese, se quedaría furiosa y no habría más chance de conquistarla. Así fueron las cosas por mucho tiempo. Él sin coraje de contarle a ella. Ella a ignorarlo sin saber de nada.
Marina tuvo muchos otros novios y él se quedó celoso. Ella seguía ignorándolo como siempre. Pero un día, a las vísperas del examen anual, ella lo llamó por su nombre. Uno debe entender aquí la importancia de ser llamado por su nombre. Lo que más garantiza que otra persona lo conoce es llamarlo por su nombre. Enamorado, ahora se decía novio de Marina, como ella le dijo. Eran novios y hacían muchos planes. Él quería un futuro y ella quería ser aprobada en el examen. Él sabía matemática y ella quería ser aprobada en el examen.
Dos semanas y un examen, fue el tiempo de este amor. Marina fue aprobada como quería y celebró su resultado, con otro novio. Él recibió sólamente un muchas gracias y una traición. Él no ambicionó saber como ella estudió inglés, biología, física o cualquier otra disciplina y garantizaba a todos que no podría más vivir. Y, de cierto modo, hoy ha muerto aquel chico inocente que no conocía el amor verdadero.
Volvió a su habitación gracias a una voz que le llamó por su nombre. Una voz adormilada y suave. Ahora, él mira su cama, se alegra al ver a Ángela, su esposa, la madre de su hijo, su mejor amiga y el verdader amor de su vida.

Evandro Ferreira

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O Blefe

O vento úmido assoviava nos cantos dos telhados romanos daquelas casas que, de tão velhas, tanto pareciam abandonadas. Era assustador, pois naquela noite a lua, desobedecendo à ordem divina, não cumpria a sua função de luminar e, ao contrário, se escondia por detrás de uma densa camada de nuvens negras e o céu era todo negro e a rua era toda negra. O tempo não era de frio, mas as roupas molhadas mudavam a percepção e o janeiro era como junho, mas sem festas. O calçamento das ruas era inútil para os sapatos de solas de couro, escorregadios demais para as pedras cheias de limo verde, mas isso não dava para ver, havia de se tatear com o pé antes de mudar o passo prevenido de um possível escorregão. Correr, nem pensar. As rodas dos carros, estacionadas no meio-fio, eram como barragens a juntar toda sorte de tranqueiras que descera com a água da chuva de há pouco e que invariavelmente iriam entupir uma ou outra boca-de-lobo. O homem pisava o lixo enquanto arriscava ficar em pé e caminhar o mais rápido possível sem estragar o verniz do sapato. Era italiano, não o homem, o sapato. O sujeito era um tipo que não se classifica, mas era médico. Estava a pé porque o carro pifara, pois carros italianos, como sapatos italianos, não gostam dessas cidades de calçamentos de paralelepípedos gastos e mal-assentados de tantos anos, e então caminhava desculpado por cumprir o dever do juramento, apressado o mais que podia, carregando a mala pesada de apetrechos que nunca serão vistos. Enfim, estacou-se ao pé de uma porta grande, filha de uma casa assustadoramente maior que o comum. A igreja ficava a duas quadras de ali, e não chamava tanto a atenção para si. Impossível não pensar o que pensou, e sua imaginação dizia que aquela casa era maior que a sua e provavelmente que a de Deus também. E ele fez a comparação. O homem dos sapatos de verniz mecanicamente tocou o botão que seria o da campainha e perdeu outros segundos, porque só então se lembrara de que se tudo estava escuro era porque a chuva havia desativado algum transformador e lhes roubado a energia elétrica, logo a campainha era inútil, então esmurrou a porta de madeira maciça com violência até ser ouvido. A trava pesada e barulhenta se abriu e o homem foi aceito pela grande casa com desespero digno da fome que se tem pela salvação.
Se assim se inicia este conto, é sempre bom estar avisado de que assim também se inicia uma desgraça. Ora, então por que continuar a ler se o mundo já é tão cheio de desgraças? Ora, como não é possível saber se todos já se consideram tão desgraçados, vamos em frente, pois ainda não sabemos o que o homem do sapato de verniz está fazendo dentro da descomunal habitação agora.
Se Deus andou descalço, esse outro salvador veio de sapatos de verniz. Passou pela sala largando nas mãos da criada que o recebera o paletó encharcado e o chapéu entortado pela água que pesa. Havia luz de candeia agora, mas ele não se deu tempo de observar a casa em detalhes, mas nos assegura essa fraca luz que era uma sala grande, tipicamente aristocrática, com ao fundo uma grande estante com escopetas e toda a tralha de caça imaginável, umas cabeças-troféu de inumeráveis espécies bem conhecidas e de algumas ainda desacreditadas da sua existência por muita gente penduradas aqui e acolá, um piano de cauda que deveria valer uns bons dobrões e que, importado, possivelmente sofreria muito mais a umidade dessa região. A grandiosidade da sala remetia a um estilo antigo de construções, o espaço era privilegiado com uma mobília muitíssimo bem disposta apropriada para longas palestras de anfitrião e convidados. Sabemos que o homem do sapato de verniz é médico, o que nos dá o direito de chamá-lo de doutor, sim, porque esse realmente o é, estudou e se formou fora do país e é muito respeitado em Europa, veio cá fazer não se sabe ainda o quê, mas deve fazer bem feito. Então, o doutor passou sem dar muita atenção à disposição dos móveis, mas percebeu alguma claridade que de jeito seu cérebro não pôde evitar, afinal estava acostumado com o breu que a chuva provocara em toda a cidade, há muito já conhecia o lugar e sabia o caminho pelos corredores e escadas sem precisar de cicerone, chegou à porta do quarto onde estava outra criada com uma expressão mumificada e entrou já preparado a aplicar uma injeção, uma de um mesmo frasquinho de vidro amarelo que há meses dizia que acalmaria a dor do moribundo, mas os seus serviços de médico só foram necessários para assinar o horário do óbito. O morto jazia em sua cama, iluminado já por velas colocadas ao seu redor ao jeito de um velório improvisado, coisa da crença da senhora governanta e de outros empregados, gente humilde que viu o amo decair gradativamente com convulsões e febre fatais que o melhor doutor, tendo acompanhado toda a evolução do caso, mesmo com a ajuda de tantas literaturas e de tantos talentosos colegas apareceu-nos sem o devido diagnóstico. O pior foi que o doutor não chegou a tempo para acompanhar o seu paciente nos últimos ais e lhe segurar a mão como a de um irmão, mas antes, poria as luvas de látex, pois a febre abrira feridas pustulentas na pele e sabe-se lá o que este homem tem. Assim mesmo ainda examinou o homem na cama para ter a certeza e saber se postumamente encontraria algo que lhe desse uma resposta ou que lhe aclarasse as idéias. Não sabemos o que o homem na cama tinha ou o que agora o tem, mas saberemos agora que o homem na cama não tinha por que morrer na companhia somente de criados e de um médico. E a família desse homem já que saberemos adiante que ele tem sim uma família? Sabemos que o homem na cama era muito rico, julgando pelo tamanho da sua casa contrastante com o resto da cidade. O silêncio fechou aquela casa hermeticamente.
Com o sol alto já era tempo de se alimentar, pois saco vazio não para em pé, como disse a governanta, e além do mais o senhor passou a noite inteira a velar o patrão e que horas são essas de o senhor cair doente, pois que nem a roupa molhada o senhor trocou, então não me recuse tomar o meu café. Segurou a chávena um tanto vacilante, mas o aroma do café que parecia recém-moído, fresco de tudo, e tirado há pouco em coador de pano foi o suficiente para animar aquela alma a sorver uma grande quantidade meio que queimando a língua. Hora exata em que pisou o tapete da sala um jovem de boa aparência que avisado da piora e depois da morte do pai veio à casa o mais rápido que pôde. A governanta o abraçou, aos gritos de que desgraça, como o faria uma mãe ao retorno do filho. Os homens por um instante se olharam e se reconheceram. O doutor era já há muito freqüentador daquela casa. Desde muito menino para ser mais exato, ainda muito antes do nascimento do rapaz, que agora está diante dele, homem-feito e bastante diferente do pirralho que foi quase expulso de casa a estudar fora por inventar certas inverdades e que há um tanto de anos não mantinha pelo pai o mesmo interesse que pela medicina. O doutor nasceu na casa, filho de uma empregada cujo nome não nos interessa agora, ainda quando o morto tinha menos de vinte anos. Foi criado por lá até que sua mãe morreu e, então, foi mandado para a capital custeado pelo pai do morto e de lá conheceu o mundo graças ao seu patrocinador. O morto, com a morte do pai, assumiu a casa e os negócios da família. Já era casado e enquanto o doutor conquistava o seu título lá fora, o rapaz nascia na casa. Coisa de doze anos mais tarde, o doutor retornou a morar com o morto e sua família e poucos meses depois o garoto, pivô de desavenças foi mandado para o internato. Não se explica a história aqui, mas o fato é que a sua mãe morreu alguns meses depois com uma parada cardíaca inexplicável para tão saudável mulher. Talvez daí venha o seu interesse por medicina. Mas voltemos aos homens que se olham na grande sala. Rancores pesaram o ar, mas não era hora para essas coisas de antiguidade, era hora de tocar com os preparativos da cerimônia que levaria o morto finalmente para fora de sua casa.
O enterro foi feito e nenhum dos homens trocou palavra. Veio a missa de sétimo dia e nenhum fez qualquer gesto que indicasse um fazer de conta que aceitava o outro. O doutor voltara a sua casa e o rapaz ficara interinamente responsável pelas coisas da família. Sim porque todos ainda aguardavam o testamento que o advogado do morto traria para ser aberto após a missa de sétimo dia, como era vontade mirabolante do morto. Os interessados foram chamados a comparecer e foram à casa do morto.
A sensação de morte traz a alguns uma aguçada percepção do resto da vida, como se espremesse o último sumo do coração acelerando suas batidas a bombear mais e mais sangue para o cérebro. Essa sensação traz a mente de volta ao seu trilho e retira dos olhos a nebulosidade da crença que tinha na vida. Espero que isso explique bastante do resto desse conto.
E estavam lá o advogado, o rapaz, a governanta e sua filha (também criada), o doutor e estranhamente o delegado e um policial. O advogado, ao jeito de um professor antiquado, começou a leitura lenta de todos os termos legais do testamento. E todos os outros, exceto o rapaz, e principalmente o doutor, ao jeito da impaciência se remexiam nas cadeiras. Depois chegou a parte que todos esperavam. Chegou a carta do morto. E as frases doentes foram claras. A governanta ficaria sob a tutela do seu herdeiro que lhe deveria dar a aposentadoria justa compensadora dos quarenta anos de dedicação àquela casa. A mulher chorou segurando a mão da filha. E o resto da carta era dirigido ao rapaz, seu filho. Dizia o morto que seu coração sempre fora honesto, mas que muito se enganara na vida. Seu filho não mentira nas suas certezas de anos antes, mas ele não confiara no rapaz. Pedia-lhe perdão, pois confiara no outro, no meio-irmão que seu pai lhe dera, o filho da empregada. Confiara em seus remédios, que o puseram de cama e o fizeram ruir. Mais sorte tivera sua mãe que se fora de um golpe, talvez com o remédio muito mais forte do qual o seu filho suspeitou sempre. Sentia muito, dizia ao filho. Pedia-lhe perdão novamente e afirmava que ele era seu único herdeiro, nenhum outro mais e que esperava que o frasco que seu advogado tinha sob sua custódia esclarecesse a sua doença.
O resto da carta não nos interessa, pois traz somente as recomendações do pai morto que deixa a herança para o filho que não puderam ser lidas nesse dia, porque ao se revelar a existência de um frasco-prova, imediatamente o doutor sacou uma seringa da sua maleta e um de seus frascos amarelos, mas bem maior que todos os outros, e encheu a seringa com a maior dose que pôde, maior que qualquer uma que já ministrara. O delegado e o policial se movimentaram como para impedir o doutor, mas se estacaram a um passo dele sem poder fazer nada. O doutor cavou a agulha no próprio estômago enquanto gritava é meu direito, sempre foi o meu direito, meu direito. E injetou o líquido em si mesmo e o silêncio voltou à casa a que pertencia. Nenhuma voz enfim se ouvia, apenas algum gemido do doutor sozinho no chão, como um feto abortado. Os sapatos de verniz raspavam no soalho e aos poucos perdiam o brilho com os arranhões. O rapaz se agachou diante do agonizante, aproveitando um resto de lucidez do doutor, e pôs diante de seus olhos, com um tanto de riso no rosto, o frasco-prova. Uma lágrima dolorida saiu do olho do doutor quando notou que esse frasco era azul. Silêncio.


Evandro Ferreira

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Meira?

Como todos os dias, tirando os sábados e os domingos, dos últimos quatro anos, Meira subiu as escadas do metrô, atravessou a rua e entrou no primeiro edifício depois de dobrar a esquina à esquerda, cumprimentou de soslaio a moça da recepção, apresentou o seu crachá para o segurança, pois havia duas semanas o seu cartão não destravava a catraca que dá acesso ao corredor dos elevadores, o moço acionou um mecanismo, sorriu-lhe um tímido bom-dia e liberou a passagem pela portinhola dos visitantes e lá foi o Meira correr atrás do elevador de que lhe seguravam a porta. A mão na porta era o Castro que trabalhava a duas mesas à esquerda do Meira na repartição cheia de baias onde somente os gerentes ou maiores tinham uma sala individual, mas as mãos dos dois colegas de há três anos não se tocaram e o gesto mais cordial foi o sorriso de agradecimento do Meira ou talvez aquele olá entre os dentes sem vontade de falar comum de todos.
A viagem até o décimo terceiro durou eternamente mais com esse colega do que duraria com a colega da direita, a Sandra. Meira olhou para a foto do seu crachá que ainda não tivera tempo de guardar, olhou para o seu nome e percebeu que o senhor Luís Carlos de Albuquerque Meira nunca tivera coragem de falar com a moça e sem pensar duas vezes disse sem olhar para o colega Acho que o ar condicionado está desregulado. Como o outro respondera Estou bem, ele sorriu de canto de lábio, fingiu aceitar a resposta e imaginou Sandra reclamando do frio apenas para chamar a atenção para o seu decote. Quando o elevador parou no andar, os dois não tinham falado mais sobre o ar condicionado nem sobre o futebol do final de semana, que pouco lhes interessava, muito menos sobre Sandra. Meira seguiu pelo corredor assim que deu passagem ao seu colega, retribuindo-lhe a gentileza da mão na porta do elevador. Chegou a sua mesa, ligou o computador, cumprimentou os colegas mais próximos e caminhou com passos decididos até a máquina do café. Escolheu café puro porque não havia creme, mas lembrou-se de colocar adoçante em vez de açúcar que não faz muito bem. Da máquina de café acenou ao seu gerente que acabara de levantar da sua mesa, grande, espaçosa e com um monitor de LCD. Definitivamente esse careca tinha alguma coisa com a Sandra pensou o Meira sorvendo um gole do café que lhe queimou a língua.
É hora do trabalho. Ao caminhar de volta a sua mesa, Meira sentiu uma estranha tontura como se o piso lhe faltasse e a cabeça crescesse sem nenhuma explicação. Para não cair apoiou-se na primeira mesa que viu. O café não chegou a derramar, mas foi o bastante para assustar a Sandra e quando seus olhos perderam a nebulosidade a primeira coisa que viu foi o decote de Sandra. Sem entender muito bem o que se passava ouviu a moça lhe perguntar o senhor está bem? Precisa de alguma coisa? e achou melhor não responder, mas não lhe faltaram os pensamentos ruins, ruins não, ao menos indiscretos. Quando se aprumou percebeu que a repartição inteira e o pessoal de todos os escritórios olhavam-no com curiosidade e ele finalmente disse Obrigado, Sandra e tentou caminhar até a sua mesa, mas antes que pudesse dar um passo, notou que havia um rapaz com uma camisa de cor duvidosa, que em nada combinava com a gravata nem com o rapaz, a sua mesa estava ocupada. O gesto audacioso do rapaz lhe causou alguma raiva e ele sem pensar direito, como que protegendo o seu território, afinal o único que parecia pertencer ao senhor Meira, perguntou ao rapaz o que procurava e o rapaz respondeu com outra pergunta, um pois não, em que posso ajudá-lo? memorizado de cartilhas de boa etiqueta de atendimento e sem nenhuma intenção de parecer humano. Meira não se calou, já havia se recuperado da tontura e disse ao rapaz O senhor pode me ajudar devolvendo-me a minha mesa. A cara de interrogação do jovem fez o Meira se sentir uma confusa raiva que o fez atacar o jovem pela gravata, quase o enforcando.
Aos berros não aceitava perder a sua mesa. Afinal, só havia saído para pegar um café. Os outros curiosos que assistiam à cena grotesca correram para separar a briga enquanto um segurava o Meira, outro acudia o jovem e as mulheres gritavam. A maior ajuda que Sandra pôde conseguir foi chamar o segurança. Vieram em dupla. A situação estava tranqüilizada, mas o Meira ainda protestava por sua mesa. Como explicar que um borra-botas qualquer lhe tomasse a mesa, mesa que era sua e de onde ele podia ver tão bem o decote de Sandra, em tão pouco tempo no intervalo para o café. O jovem ainda esbaforido da briga arrumava as suas coisas que se espalharam por cima do teclado, derrubando porta-retratos, canetas e uma miniatura do Darth Vader. Nesse momento, o Meira percebeu que não havia mais coisas suas na mesa, que não havia a foto da mãe e de suas sobrinhas e outro ataque de histeria lhe tomou conta do cérebro. O segurança lhe agarrou depois de muitos gritos de onde estão as minhas coisas, o retrato de mamãe, as bebês, o que fez com elas. A repartição inteira agora estava atônita com a cena.
O gerente com todo o escândalo deixou a sua sala para gerenciar a situação. Você pode me explicar o que acontece aqui perguntou o careca com a frase que quase todos os chefes gostam de usar quando eles mesmos não sabem o que fazer. Eu trabalho aqui, essa mesa é minha, essa caneca é minha, cadê minha caneca? Sinto muito, mas o senhor está equivocado, o senhor não trabalha aqui, pelo menos não neste andar. Pode nos dizer o que deseja e explicar direitinho o porquê desta confusão toda. Creio que o senhor queria algo, mas os seus meios não são os mais adequados a ocasião disse mais eloqüentemente do que era o gerente da repartição. O Meira achou ter notado um suspiro e um arfar mais acelerado no decote de Sandra quando ela ouviu o gerente falando. Com toda a certeza esses dois têm um caso, interesseira safada, como eu não trabalho aqui, trabalho nessa mesa já há quatro anos, e você seu gerentezinho de merda nunca me dirigiu a palavra, nunca nem agradeceu a todos os relatórios e gráficos que eu envio para o seu email depois de cumprir horas e horas de serões e que você leva para a presidência como se fossem seus, seu safado. Você nem sabe o meu nome. Eu quero a minha mesa. E tira as mãos de mim, tira as mãos de mim que não sou vagabundo, eu trabalho aqui seu segurança de merda, olha o meu crachá, cadê o meu crachá, cadê o meu crachá. Por favor, tenha a bondade de acompanhar os seguranças até a saída ou eu vou ser obrigado a chamar a polícia. Vamos evitar isso, por favor. Por favor, acompanhe-nos. Eu trabalho aqui, alguém pegou o meu crachá eu quero a minha mesa. Então, recorreu à memória do Castro, Castro, fala para eles que eu trabalho aqui, que aquela mesa é minha, lembra que você segurou a porta do elevador para mim agora há pouco, Castro. E o Castro se limitou a fitá-lo de cima a baixo e acenou com a cabeça como quem diz que é caso perdido. O Meira saiu aos berros arrastado pelos dois brutamontes. Protestava e gritava gerentezinho de merda, Castro traidor, nerd desgraçado e vadia, vadia, vadia, eu sou o Meira. Todos se entreolharam: Meira? E o dia seguiria como se nada tivesse acontecido.
Depois de alguns murros dos seguranças que se divertiram bastante do décimo terceiro andar ao térreo, do térreo ao décimo terceiro e do décimo terceiro ao térreo novamente, ele foi atirado à calçada ameaçado de ir preso se retornasse. O Meira pôs as mãos nos rosto querendo entender porque as pessoas o tratavam como um estranho, um estranho que de fato nunca tinham visto, o que não era o seu caso. Parecia que ninguém se lembrava dele. Nem aquela menina da recepção, nem o segurança que abria a portinhola para ele todos os dias na última semanas. Todos tinham se esquecido dele. Procurou na carteira bilhetes de metrô que a empresa lhe pagava e não havia nenhum. Pensou nos seguranças, mas eles não lhe tinham tirado a carteira do bolso. Lembrou-se do crachá, e entendeu que da mesma forma misteriosa os bilhetes desapareceram. E todos os seus cartões e seu dinheiro. Pensou novamente nos seguranças, mas era impossível. Restava-lhe o seu RG com sua foto e seu nome Luís Carlos de Albuquerque Meira, é ele sabia quem era: Luís Carlos de Albuquerque Meira, o Meira, o Luisinho da sua mãe. A sua mãe, é claro, ela se lembraria dele, afinal, as mães nunca se esquecem dos filhos. Tinha que ligar, não tinha cartão, tinha que ir para casa, estava muito longe e sem condução. Decidiu ligar a cobrar do primeiro orelhão, ligou a mãe atendeu, ele chorou ao telefone e chamou por ela. Do outro lado a velha histérica xingava isso não é coisa de marmanjo da sua idade fazer, ficar passando trote assim, chorando no telefone dos outros, eu não sou sua mãe e não conheço nenhum Luisinho e bateu o telefone na sua cara. Ele caiu ali mesmo, ao pé do orelhão como um bêbado rasgado sem casa. Chorou mais ainda e o sol já era quase do meio dia.
Cambaleou até um banco, num parque próximo e ficou ali sentado algum tempo. Do nada, ele se deu conta que não sabia mais o caminho de casa, e começava a se esquecer do que estava fazendo ali. A voz da mãe ao telefone já não lhe parecia familiar, já não se lembrava da dela. Pegou a carteira e viu o seu RG. Não tinha mais foto e não tinha mais Luís Carlos de Albuquerque. Só ficou o Meira, mas quem era o Meira? Quem era o quê? Não se lembrava, não era mais nada. Pensou num decote que lhe pareceu familiar e desapareceu sentado no banco ao meio-dia em ponto.


Evandro Ferreira

quarta-feira, 26 de março de 2008

Casa de Bonecas

O bairro silencioso se assustou com o rumor naquela casa que sempre fora tranqüila. A cena: o pai gritando, a mãe chorando e o filho mais novo, menininho, sentado vendo a irmã de quinze partir com um pouco de coisas dela.
Que diabos fazia aquele homem com aquela menina? Punha a filha escorraçada de casa? Ele que sempre parecera tão tranqüilo! Que se passava ali, afinal?
Os gritos cessaram, mas ainda se ouvia algum choro da dona da casa e pai pedindo para não se falar mais nada (tudo isso baixinho para não causar mais escândalo).
Não, o pai não pusera a menina fora de casa, como imaginaram os vizinhos. Ele, ao contrário, tentara dissuadi-la da idéia que a jovem cabeça tinha por certeza: ia morar com o namorado. E foi.
O seu mundo de sonhos era um barraco de dois cômodos na favela do outro bairro, distante uns quatro quilômetros da casa do pai. Não era com o que ela estava acostumada, mas para tudo dá-se um jeito. Pensava: “por amor, eu me habituo a essa diferença de tudo; além do mais, o Well dará um jeito em tudo logo, logo”.
O Well era um sujeito de uns vinte e cinco, não muito interessado nas coisas de trabalho e de caráter, no mínimo, duvidoso. Ela sabia disso, mas ele era seu príncipe encantado que não precisava trabalhar como o pai para sustentar a casa. Ele era assim um homem de negócios e, sim, as coisas iriam sim melhorar, pensava.
O barraco ficou parecendo um lar depois que ela chegou. Limpou, varreu, espanou e pôs panos por tudo que é lugar como se brincasse. Fez bolo e jantar para esperar pelo amado. Quatro dias durou este conto.
Uma noite, chegou Well a casa, esbaforido. A menina tentou abraçá-lo, recebeu um empurrão quase-soco, caiu, bateu com a cabeça que sangrou (o empurrão não foi de raiva, ele nem viu quem era ela). Ele pegou qualquer coisa no guarda-roupa e saiu. Ela, ao mesmo tempo, saiu pelos fundos e ouviu os tiros. Não olhou para trás. Correu pelos becos e vielas já sabendo da morte do seu “marido”.
Chegou à casa do pai muito suja e chorando bastante. O velho olhou para a filha com o canto dos olhos magoados e soltou uma longa lágrima e um soluço escandaloso. E diante da mãe apreensiva e do filho curioso abriu os seus braços num gesto que só pai sabe. Aconchegou sua filha e seu neto e recomeçou de onde tinha parado.

Evandro Ferreira

sábado, 1 de março de 2008

Made in Taiwan

Quatro e meia da manhã. O rádio-relógio made in Taiwan desperta com uma música sertaneja da mais brega. Adianta nada. Jorge Firmino já está acordado desde as quatro como em todos os dias nos últimos vinte e cinco anos! Só nunca saía da cama antes para ter o gosto de desligar o danado, que, até uns dois anos atrás, era um despertador dos de corda ainda. Depois, é tomar banho, vestir-se, tomar o café pontual de Maria Benedita e, mais ou menos umas cinco e quinze, viajar de casa até a estação de trens na sua Caloi Barra Forte, chegar meia hora antes e pegar no trabalho às sete. Jorge Firmino lamenta a viagem inteira o seu acordar diário meia hora antes do relógio. Um insulto a quem trabalha tanto e descansa tão pouco. Um desperdício.
Na empresa, opera a perfiladeira automática. Uma inveja para outros colegas que queriam, mas não se dão com a máquina. É serviço melhor. É o dia inteiro um marasmo de assistir àquela coisa gigante trabalhando e, só de vez em nunca, ajustar uma peçazinha aqui e ali. O salário é que não paga o desgaste. Uns seiscentos reais, com descontos mais benefícios. Mas o Jorge, ao contrário da maioria, não reclama nunca. Afinal ele ajunta um bom trocado a mais com as horas-extras que faz e a economia dos passes do ônibus. Não liga de não chegar cedo à casa. Só não se conforma de acordar meia hora antes do rádio-relógio.
Hora do almoço é dominó e truco para o resto da “peãozada” e Jorge fica vendo TV, não se enturma. Sempre fora de pouquíssima conversa. Uma enorme timidez que, não é de hoje, provoca comentários de não sei nem como ele se casou. É difícil ouvir qualquer coisa dele. Quem sempre ouve a sua voz é o seu Marcos, o encarregado de produção. Mas é sempre um “sim-senhor” cabisbaixo, quase inaudível e muito respeitoso. Almoça e vai ao banheiro para depois não ter que parar o serviço por particularidades suas. Inveja os que conseguem fazer uma sesta e se arrepende de ter acordado antes do relógio estúpido de Formosa.
De volta à máquina, pelo ponto de vista do “penso, logo existo” de Descartes, Jorge Firmino não existe mais. É peça integrante daquela armação metálica. Nenhuma preocupação se assoma a sua cabeça. Não há mais razão no que faz, apenas faz. Os olhos negros mirrados acompanham a máquina mecanicamente. Nenhum músculo se move se não for por causa dela. As horas voam do meio dia às quatro. Ele nem faz questão. Os outros é que começam a algazarra do ponto, faltando ainda dez minutos. As máquinas agora aguardam o pessoal do noturno e seu Marcos avisa o Jorge que é hora de ir, pois hoje ele não paga hora-extra não. O homem olha o relógio da parede, passaram-se dez minutos e ele se lembra de ter acordado trinta minutos antes do desgraçado do rádio-relógio.
A mesmice da sua vida começa a incomodá-lo. A volta a casa é um silêncio ônibus-trem-bicicleta pensando só no rádio-relógio. Em casa às dezenove, fala qualquer coisa a Maria Benedita, pega o prato e assenta-se na sala em frente à TV. A mulher ainda tenta incomodá-lo com um falatório de qualquer coisa da novela e de um carnê para vencer ainda este mês, mas não tem papo. Jorge Firmino está com um olhar vítreo de uma cor quase crepitante de quem tem a cabeça povoada por uma idéia macabra. Percebe, só agora, que levara um dia inteiro para entender a sua revolta. Venceria o desgraçado, relógio maldito, instrumento do capeta para infernizar a sua vidinha. Cadê que acordaria meia hora antes?
Ao se deitar, toma o cuidado de desligar o desgraçado da tomada e de arrancar fora as suas duas baterias emergenciais. Se é pra acordar antes, então que acorde sem, pensou o pobre diabo. E ele dorme agora. Um silêncio! Zoada nenhuma na rua. Ronco nenhum de Maria. Três e meia. Quatro. Quatro e meia sem relógio. Cinco. Seis. Acorda com olhos inchados às sete. Levanta o mais depressa que pode. Sem banho nem café pontual que também perdeu a hora. E vai desesperado na sua bicicleta com muito medo do seu primeiro atraso no emprego lhe custar sua demissão.


Evandro Ferreira

Lotação Esgotada

— Não, não... Muito estranho esse barulho! — Pensou consigo e parou o carro do sogro na primeira chance que teve. Desceu para verificar os pneus, os amortecedores, o que fosse. Andou em volta atento e, não encontrando a causa do barulho chato, retornou ao volante.
— Por favor, moço, vai pro Centro?
E ele se virou assustado para o banco traseiro, onde uma loirinha de pernas grossas se acomodava, fechando a porta enquanto falava, tentando se exibir quase comicamente.
— Moça, sinto muito, mas a senhora, senhorita, você deve estar enganada.— Disse isso sem tirar os olhos do corpo feminino. — Eu não...
— Boa tarde, doutor! Vai pro Centro? Eu vou descer no mercado do Moisés, lá perto da Praça da Bíblia, conhece? — Disse um sujeito magro, já entrando pela porta do carona e se acomodando no banco.
— Espera! Que é que vocês estão pensando? Acho que há...
— Oi, passa pelo mercadinho do seu Moisés? É que, se não passar, fica muito longe pra mim. E com criança pequena ainda fica mais difícil andar. Então, moço, passa no seu Moisés? O menino não paga se for no colo, não é? — Desatou a falar uma senhora gorda que quase pôs a loira fora do carro quando entrou e que, de certo, pensou ele, deve ter causado danos irreversíveis ao amortecedor traseiro-direito. O pior era o menino nojentinho comendo um esmigalhante biscoito de polvilho.
— Um momento, por favor! Eu não... Hei, pára de mexer nos meus CDs!
— Desculpa... Achei que a gente podia escolher a música para a viagem. — Disse a loirinha com uma insuportável voz de adolescente.
— Gente, eu não vou levar ning...
— Já sei. — Disse o sujeito se olhando no espelho do carona. — É sempre assim, vocês sempre têm que esperar a lotação ficar completa, né parceiro? Mas eu não reclamo, porque ônibus hoje em dia tá muito caro. Uma corridinha daqui até o centro já é o olho da cara!
— Mas tá demais, mesmo! — Concordou a gorda. — E eles ainda carregam a gente que nem se “fôssemos” uma carga de bois. Sem contar que já querem cobrar a passagem do menino... Onde já se viu, cobrar de um menino que ainda não senta sozinho no banco, nem ocupa espaço?
— Não, não é isso... Eu não estou esperando a lotação completar. Eu só não...
— Então tá esperando o quê, então? Vamo embora que eu tenho horário!
— Aí, xará! Cabe mais um aí atrás? — Perguntou um baixinho com cara de malandro das antigas. — Cabe sim, mas vai apertado! — Disse a loira.
— Não! Não cabe mais ninguém nessa merda de carro! — Gritou irritado, socando o volante em completo desespero.
— Tá bom, mano! Se você não quer levar cinco no carro beleza. Mas a gente tem que ir pro trabalho!
— Ele não quer levar mais um porque essa gorda suada já ocupou todo o espaço aqui atrás.
— Olha o respeito comigo, menina! Eu conheço a sua mãe, heim? E sei muito bem dos seus podres com aquele maconheirozinho lá da quadra. Você cala a sua boca, sua galinha loira sem pai!
— Que que é, tia? Cê fica o tempo todo reclamando que todo mundo cobra a passagem do seu nojentinho aí, mas você “mermo” ocupa dois lugares.
— He he! Acho que o tempo vai fechar aí atrás, ói!
— Pelo amor de Deus, gente! Eu não vou levar ninguém...
— É, deixa a gorda e me leva que eu preciso trabalhar. Insistiu o baixinho batendo no pára-brisa para chamar a atenção.
— Parem com essa discussão agora! — Gritou enlouquecido, já saindo do carro. — Eu vou tir...
— Boa tarde. — Foi a fala de um PM que chegou nessa hora. — O senhor tem autorização para rodar como lotação? Acredito que não, certo?
— Lotação? Isso não é uma lotação! Esse pessoal maluco invadiu o meu carro! Você precisa me ajudar.
— E você quer que eu acredite nisso. Qual dos “meliantes” que invadiram o seu carro é o Papai Noel? O fato é que o senhor está exercendo um serviço ilegal e eu posso autuar você por isso. Claro que, se o senhor estiver disposto a conversar, não sou eu que vou botar impedimentos...
— Eu não sou motorista de lotação. Eu sequer uso lotação! Eu sou só um professor que já deveria estar no colégio em que trabalha e que teve o carro invadido por essa loira-cachorra, esse tipo esquisito, essa gorda com esse moleque nojento que empestou o meu carpete de farelo desse biscoito sem gosto e... Ué?... Cadê o baixinho? Tinha mais um baixinho aqui me torrando as paciências. — O baixinho malandro já havia fugido quando sentiu o cheiro da polícia. De certo ele também nem pensasse em pagar a corrida.
— Tudo bem, mas agora eu não sei se autuo o senhor só pela lotação ou se pela lotação mais embriaguez. Vamos, amigo, facilite nossa vida. Adianta o meu lado que eu adianto o seu. Eu sei que você tá na correria e tudo mais. Mas as coisas estão difíceis, entende? Eu te deixo ir de boa, mas essa viagem você não vai poder fazer, porque senão a coisa pega pra mim, entendeu?
— Então esse pessoal vai ter que sair do meu carro, certo?
— Isso mesmo.
— O que é que eu preciso fazer?
— Cê sabe... Garantir a verba daquela cervejinha gelada do final do plantão, afirmativo?
— Ah, entendi. E quanto custa essa cervejinha?
— Cenzinho...
— Quê? Isso é um assalto. Eu sou professor, lembra?
— É, o senhor disse. Vamos fazer assim: não me venha querer ensinar o meu trabalho, entendido, professor? E dizer “assalto” assim na frente de um homem da lei, não pega bem, certo? Porque eu sou a lei e posso enquadrá-lo por uma porção de coisas: como pela falta de autorização para rodar como lotação; por o senhor ter colocado a vida dessas pessoas em risco, pelo seu, digamos, estado emocional alterado, entende?; por direção perigosa; além de desacato à autoridade. O que o senhor acha?
— Cem, não?
— Cento e cinqüenta é melhor.
— Só tenho cento e vinte...
— Como só tem cento e vinte? O senhor com essa caranga toda aí é porque lotação deve estar dando dinheiro. Já vi nego fazendo lotação de Chevettinho e Brasília, até de Fusca, mas de Astra zero bala...
— É do meu sogro. Só tenho cento e vinte. — Disse com voz exausta. — é pegar ou me levar preso.
— Tá valendo... Dá aí a cerva, pega o carro e se manda daqui que seus passageiros já até saíram fora!
— Ah, tá... Obrigado...
Voltou ao carro, sentou-se ao volante e notou que lhe haviam roubado o aparelho de som e seus CDs, o que não deve ter sido feito pela gorda. Teve vontade de chorar, mas sorriu quando viu que não haviam levado A Rosa do Povo, do Drummond, que era tema da sua aula que não acontecera. Também não mexeram nos materiais que estavam sob o banco.
Já ia dar a ignição no motor, quando um sujeito, de rosto chupado e marcado por um bigode mal aparado, com um cabelo alisado e lambuzado por qualquer coisa inidentificável, cheio de correntes e pulseiras douradas, com aquela unha gigantesca no dedo mindinho que serve para coçar o ouvido, vestido numa uma camisa aberta e démodé em combinação com seu Ray Ban, veio-lhe bater ao vidro exigindo explicações por lhe ter tomado o ponto de lotação.
Que diabos fazia ali? Quem o havia mandado para lá? Era louco? Estava querendo morrer? Gritava-lhe o outro enquanto ele abaixava, lenta e pacientemente, o vidro automático. Esperou que o outro aproximasse o seu rosto da janela para se fazer ouvir melhor e deu-lhe um soco furioso no nariz que o pôs de pernas ao ar. Saiu rápido com o carro e foi para casa tranqüilamente ouvindo aquele barulho chato e incessante que agora, tinha certeza, era do amortecedor.

Evandro Ferreira